Quando eu era pequena, não entendia porquê chamar um negro de negro era racismo. Tudo o que passava pela minha cabeça era "mas ele é negro!" e, por muito tempo, pensei que também era racismo quando as pessoas riam de mim por eu ser branca demais.
Lembro que todo fim de semana íamos à praia e eu ficava feliz por estar menos branca quando chegava a segunda-feira. Hoje, quando eu vou para praia, passo litros de protetor solar, não tiro a saída-de-banho, fico na sombra e não fico mais de uma hora. Não vejo vantagens em estragar a minha pele, fazendo-a envelhecer mais rápido e ficar manchada devido ao abuso do Sol. Mas, admito, invejo as morenas e as negras, mesmo adorando ser branquinha, branquinha.
Agora eu entendo toda a história que há por trás da palavra "negro". E acho que todos os negros devem lutar contra esse preconceito que ainda é tão enraizado na nossa cultura. Porém, não acho que deveriam se sentir tão ofendidos quando alguém os chama de negro, preto, mesmo quando há intenção de humilhar (claro que é diferente quando xingam de "sujinho", "carvão", "água suja". E, mais óbvio ainda, ninguém deveria jogar palavras contra os outros com a intenção de ofender e machucar).
Sentir-se ofendido por ser chamado de algo que a pessoa é, mostra muito mais sobre o oprimido do que sobre o opressor. Você é negro, você é preto, e só há motivos de orgulho quanto a isso, sinta orgulho de si, orgulho da sua história, do seu povo. Ria da pessoa que está simplesmente lhe apontando o óbvio. Não se sinta humilhado pela verdade quando não há nada de vergonhoso nela. Sinta pena das pessoas que acham que cor é algo além de apenas uma cor.
Nas brigas com a minha irmã, e brigamos muito por termos conceitos morais bem diferentes, o maior xingamento que ela tem para atirar contra mim é "lésbica" (algumas vezes ela inova e me chama de "sapatão"). Eu sempre solto uma gargalhada e a olho incrédula. Sim, eu sou lésbica. Sim, eu gosto de outras mulheres, gosto de beijá-las e de tocá-las. Como eu poderia me ofender por causa de algo que faz parte da minha identidade?
Isso não significa que não vou defender os direitos dos meus iguais, do mesmo modo que defendo os direitos das mulheres, dos negros, daqueles que são excluídos apenas por não serem como a sociedade exige que sejam.
Não combatam o ódio com mais ódio. Como Oscar Wilde diz: perdoe os seus inimigos, nada os aborre tanto! Não deixem de lutar por aquilo que é certo, sintam orgulho de serem quem são, mas façam isso sem agir como as pessoas que queremos que aprendam a respeitar as diferenças.